"Basta
uma janela para me fazer feliz e foi o que me aconteceu também quando cheguei à
Sala 19. Era o Castelo, era o Tejo, era a cidade de mármore e granito (como
dizem) a espreitar para dentro da aula. Vai, que fiz eu? Como queria tomar o
pulso aos rapazes em matéria de escrita, propus-lhes aquele tema.
«Da varanda
da nossa aula» podia muito bem ser o título da redacção; mas também podia ser
outro, à escolha do freguês. O que eles escrevessem serviria para eu ver como
escreviam, como viam e como imaginavam. À maneira de preparação, disse-lhes:
«Suponham que
está aqui uma chávena da China. Vocês têm de escrever a partir dela e podem
fazê-lo contando que ela tem este ou aquele feitio, esta ou aquela cor, um
desenho que representa isto ou aquilo e tem a asa do lado esquerdo. Mas também
não dizer nenhuma destas coisas e imaginar, com os olhos nela, uma coisa
passada na China: chinesinhos de rabicho, arroz comido com pauzinhos, sei lá o
quê. Ou fantasiar um chá das cinco em que serviu aquela chávena: quem estava nesse
chá, o que se disse, o que se passou durante essa hora. Posto o que, vão à
janela um bocadinho, olhem, voltem, sentem-se e escrevam o que quiserem, com o
título ou subtítulo “Da varanda da nossa aula”.»
Os rapazes,
feito o honesto barulho de correrem à varanda, atiraram-se à obra. Eu fui
pacatamente olhar Lisboa, porque quero começar a fazer-lhes sentir que eles não
devem copiar(...)."
(...)O que era
bom era dar sempre uma aula como a de hoje!” (22 de Outubro de 1949); “E foi o que eu ontem não consegui...” (25
de Março de 1949)(...)
Sebastião da Gama
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