domingo, 24 de novembro de 2013

Senhores importantes: leiam esta minha carta e façam qualquer coisa, os professores já não aguentam mais

Daniel Sampaio (foto tirada dali)
 (…)Chamo-me Carla, tenho 41 anos e sou professora de Francês, numa escola secundária com 3.º ciclo da periferia de Lisboa. Parece que pertenço agora a um grande agrupamento, mas os colegas da direcção da escola nunca tiveram tempo para falar disso e dizem apenas que foi “ordem do Ministério”. Vejo-os sempre com tarefas burocráticas, agarrados ao computador ou a resolver (?) problemas de disciplina, nem me atrevo a perguntar qualquer coisa.
Os meus alunos: um grupo de estudantes de várias origens, africanos, romenos, brasileiros e chineses. Olham para mim com ar de tédio, com frequência dizem que já ninguém fala francês e que eu deveria ensinar espanhol ou alemão. Os que falam, porque muitos pouco dizem, oscilam entre o bocejo e o alheamento total, como se nada na escola lhes dissesse respeito. As aulas são uma espécie de batalha: eu tento falar francês, escrever no quadro frases para que eles copiem, dou fichas para trabalho de grupo em fotocópias de má qualidade, grito por silêncio; eles oscilam entre a provocação e a dispersão total, conversam uns com os outros e mandam em telemóveis que mandei guardar nas mochilas. Abundam as piadas sexuais, as referências a humilhações na Internet, as alusões a graffiti nas paredes da escola. Uma rapariga de 15 anos do 8.º ano, minha aluna, é vexada na sala de aula por ter tido sexo com dois rapazes, atrás de uma moita no jardim (?) da escola.
Sim, tenho alguns bons alunos, mas o ambiente é de tal ordem que eles se envergonham dos resultados positivos. Na verdade, pouco percebem de francês: aprenderam alguns truques para responder às questões dos testes, mas não sabem construir uma frase na língua que procuro ensinar. Não querem ser apelidados de “cromos” e depressa entram no jogo, porque no pátio a perseguição pode ser dura. Os mais frágeis, vítimas de gozo e empurrões em plena sala de aula, vingam-se bem quando se tornam campeões do essa nova forma de agressão pelo computador que se tornou o reino dos mais fracos.
(…)
Não sei a quem me dirigir. A escola não tem psicólogo e muitos alunos têm graves problemas em casa, que me confidenciam em sussurro no final de algumas aulas. Não sei o que fazer: a saúde escolar não existe, a educação sexual está outra vez residual, acabou a Formação Cívica, não sei a quem enviar os alunos em risco: por isso faço o possível, mas o possível é pouco.
Senhores importantes: leiam esta minha carta e façam qualquer coisa, os professores já não aguentam mais.

Atentamente, Carla Martins
Leia todo o texto no jornal Público de hoje

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