domingo, 24 de dezembro de 2017

UM NATAL ESPECIAL (3)



Dia de Natal
Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?)
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente acotovela, se multiplica em gestos esfuziante,
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
E como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra – louvado seja o Senhor! – o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.

Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha em pijama.

Ah!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,

veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam

crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,

dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão, in 'Antologia Poética'

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

UM NATAL ESPECIAL (2)


Loa
É nesta mesma lareira,
E aquecido ao mesmo lume,
Que confesso a minha inveja
De mortal
Sem remissão
Por esse dom natural,
Ou divina condição,
De renascer cada ano,
Nu, inocente e humano
Como a fé te imaginou,
Menino Jesus igual
Ao do Natal
Que passou.

Miguel Torga, in 'Diários'

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

"Não sendo possível fazer-se com que aquilo que é justo seja forte, faz-se com que o que é forte seja justo." (Blaise Pascal)



Uma proposta intragável


É como o SIPE – Sindicato Independente de Professores e Educadores – considera o projecto de portaria apresentado pelo ME para regulamentar o acesso ao 5º e ao 7º escalão.
(…)
E ao contrário do que se possa pensar, este não é um problema apenas dos professores posicionados no 4º ou no 5º escalão. Se não for devidamente resolvido afectará, no futuro, as progressões de todos os docentes que ainda não passaram a barreira do 7º escalão.

Para ler todo o texto, clique aqui

sábado, 16 de dezembro de 2017

UM NATAL EM ESPECIAL




Quem faz das tristezas forças
E das forças alegrias
Constrói à força de Amor
Um Natal todos os dias.


"Os Operários do Natal" (Ary dos Santos e Joaquim Pessoa)

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Estudar faz bem ao estudante, à Escola e à Economia



Como explicar por que é que em nenhum outro dos 35 países da OCDE o abandono escolar no ensino secundário é tão alto como em Portugal?
Seja qual for o prisma, a evolução do sistema educativo português está acima de qualquer dúvida. Há mais alunos a concluir o secundário — a taxa de conclusão subiu de 50 para 82% entre 2005 e 2015 —; esse crescimento foi o maior entre os 35 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE); Portugal é dos poucos membros nos quais a tendência de melhoria contínua de resultados está mais consolidada; os progressos em estudos sobre literacia (como é o caso do PISA) são insofismáveis, etc.
Subsiste, porém, a reprovação ou o abandono escolar, o reverso da medalha que importa agora reverter. Em nenhum outro país europeu o chumbo escolar está tão interligado com níveis socioeconómicos e culturais das respectivas famílias como por cá. Portugal e a Holanda têm níveis de reprovação altos. Mas enquanto no primeiro quem reprova é oriundo de estratos económicos e culturais abaixo da média, no segundo há uma paridade entre classes sociais. Como explicar por que é que em nenhum outro dos 35 países da OCDE o abandono escolar no ensino secundário é tão alto como em Portugal? A par deste dado — mais de um terço nos estudantes não atinge aquele nível de ensino —, o relatório Education at a Glance 2017 refere outra particularidade: apenas metade dos estudantes termina em três anos o percurso entre o 10.º e o 12.º ano. Como explicar por que é que 35% abandona a escola sem um diploma, cinco anos após o início do secundário, quando a média da OCDE é de 68%?
Aquele relatório, relativo ao ano lectivo de 2014/2015, coincide com a chegada ao 12.º dos primeiros alunos abrangidos pela escolaridade obrigatória até aos 18 anos e, sobretudo, com o período de intervenção da troika. A desvalorização do papel da escola ou a carência económica sempre foram factores endémicos do emprego precoce em Portugal, marcado por uma cultura de trabalho infantil nas décadas de 80 e 90 do século passado, e não custa aceitar que condicionantes deste tipo sejam explicações plausíveis.
Sabemos que o percurso escolar determina, em grande parte, o percurso profissional e os dados da OCDE reforçam-no: os jovens adultos entre os 25 e os 34 anos, com o ensino secundário concluído, têm uma menor taxa de desemprego comparativamente a quem o abandona (9% contra 17%). Estudar faz bem a quem estuda, faz bem às escolas e faz bem à economia.