segunda-feira, 22 de abril de 2013

...contribuir para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e inclusiva ...


Clientes com deficiência auditiva são atendidos por assistentes em Língua Gestual Portuguesa.
O serviço de vídeo-intérprete para surdos da Vodafone, em que os clientes com deficiência auditiva são atendidos por uma assistente em Língua Gestual Portuguesa (LGP), registou mais de quatro mil vídeochamadas desde a sua criação, há um ano.
O call-center funciona de segunda a sexta-feira, das 9h às 20h, através da linha 12717. Desde o lançamento a 27 de Abril do ano passado, foram registadas mais de quatro mil vídeochamadas, uma média de 80 por semana.
A gestora do projecto de responsabilidade social da Fundação Vodafone, Ana Mesquita faz um balanço "muito positivo" deste serviço gratuito para surdos, que é pioneiro em Portugal.
“A Vodafone Portugal foi a primeira operadora a lançar um call-center dedicado à comunidade surda, ou seja, o atendimento ao cliente é efectuado directamente pela assistente em LGP, não há aqui um intérprete pelo meio que faça a ponte entre as necessidades das pessoas surdas e o assistente”, explica.
Ana Mesquita sublinha que o lançamento deste projecto tinha como objectivo contribuir para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e inclusiva através do lançamento de produtos e serviços adaptados e inovadores a pessoas com necessidades especiais.
“O lançamento deste serviço não é uma iniciativa isolada. Integra um programa no âmbito da responsabilidade social da Vodafone muito mais abrangente. Desde 2005 temos vindo a promover e disponibilizar produtos e serviços adaptados também aos cegos e a pessoas com incapacidade superior ou igual a 60%”, acrescenta a gestora.
A equipa de assistentes do call-center teve formação com um intérprete e com o presidente honorário da Associação Portuguesa de Surdos, João Adalberto Ferreira, que ajudou a desenvolver gestos "específicos do léxico das telecomunicações que não existiam antes, como por exemplo pen, banda larga móvel, portabilidade, entre outros", afirma Ana Mesquita.
A maioria dos contactos efectuados para aquele serviço diz respeito a questões sobre facturação e outras relacionadas com os produtos e equipamentos.
Rute Faria, uma das quatro assistentes do call-center da Vodafone, considera o serviço "muito positivo e enriquecedor". "A LGP é a minha língua materna. Sou filha de pais surdos. Não sou intérprete, não sou formada, mas uso a LGP desde sempre”, conta a assistente, de 29 anos, que integra o serviço desde o início.
“Não somos meros intérpretes. A comunidade de surdos sente-se à-vontade connosco porque sabe do que estamos a tratar e não precisamos de recorrer a terceiros”, sublinha.
O projecto da Vodafone foi pioneiro, mas actualmente já existem outras operadoras na área das tecnologias que disponibilizam este serviço, como a TMN e a Optimus. Existem também outros serviços de vídeo-intérpretes disponíveis e gratuitos na Internet a que os surdos podem recorrer através do Serviin (Serviço de Vídeo Intérprete) na página do Portal do Cidadão Surdo.

Haverá vida para lá da Escola?


Professores e psicólogos desdramatizam a importância da prova, mas há mais pais a pagar explicações privadas
Os alunos do 4.º ano do ensino básico vão estrear-se nos exames nacionais no início de Maio, o que faz com que mais crianças entre os nove e os dez anos recorram aos centros de explicações. Com a aproximação das provas finais nacionais do ensino básico e secundário, o terceiro período de aulas costuma ser uma altura de corrida aos explicadores.
“Temos tido mais procura por parte de alunos do primeiro ciclo, provavelmente devido ao exame do 4.º ano”, confirma o responsável pelo centro pedagógico multidisciplinar Centro da Questão, em Lisboa, Hugo Gomes. Dos 97 estudantes inscritos, os do primeiro ciclo do ensino básico continuam, porém, a ser uma minoria. “Mais de metade dos nossos alunos são do secundário, sendo que temos mais afluência de alunos do 10.º ano”, explica. Língua Portuguesa, Matemática e Físico-Química são as disciplinas em que os alunos mais pedem ajuda quando se inscrevem em explicações privadas.
Nos Ginásios da Educação da Vinci – onde, entre outros serviços, existem explicações privadas – também se verifica uma tendência de maior procura nos meses de Abril e Maio. Junto dos alunos do primeiro ciclo, o trabalho passa sobretudo pelo “reforço ou recuperação dos conhecimentos e competências”, bem como pelo “trabalho no exercício de simulação de exames”, normalmente em aulas individuais ou em grupos de três crianças, informa Sandra Romão, directora-geral do grupo da Vinci.
A procura de explicações privadas nesta etapa dos estudos “é um comportamento que não vai resolver o problema do conhecimento”, diz o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, Albino Almeida. “Há indicação de que há pais a pagar explicações para exames do 4.º ano, que nem sequer são eliminatórios. Não há necessidade de ter este tipo de explicações quando a oferta educativa das escolas pressupõe horas para estudo acompanhado e esclarecimento de dúvidas”, observa. 
Público de hoje

Um filme com gente dentro


Um grupo de alunos de cinema da Universidade da Beira Interior, na Covilhã, decidiu dar o protagonismo a pessoas com deficiência mental no projeto de fim de curso.
“Síndrome de Cinema” é um filme dentro de outro filme, explicou à agência Lusa o aluno e realizador Henrique Cannavial.
Entre 20 a 30 utentes da delegação da Covilhã da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental (APPACDM) vão ser atores, produtores e realizadores de uma fita que será projetada dentro de algumas semanas.
A estreia está marcada para a sala de cinema da universidade, numa gala em que cada um dos participantes vai receber um prémio – tal como as estrelas de cinema recebem os Óscares.
Todo o processo será orientado e filmado pelos alunos de cinema, resultando numa curta-metragem que será avaliada como projeto de final de curso, mas que “representa muito mais”, descreve Henrique Cannavial.
Os finalistas querem “fazer um projeto social, para dar algo à Covilhã”, como forma de retribuir os três anos de hospitalidade de que já beneficiaram, referiu o realizador, natural da ilha da Madeira.
“Sempre fui bem recebido aqui”, sublinhou.
Um dia, escutou a história de um dos colegas que teve uma irmã com Síndrome de Down.
Pouco tempo depois, o projeto estava a ser apresentado à APPACDM da Covilhã, que procurava atividades na área da expressão dramática.
“Foi uma ideia que nos cativou e que nos pareceu enriquecedora para os clientes: eles estão curiosos e motivados”, refere Carina Correia, psicóloga na instituição.
Os alunos estão a conduzir sessões de trabalho em que apresentam o equipamento e os processos de produção e em que tentam chegar a um consenso sobre o filme que vão fazer.
“Uns gostam do 007, outros de comédia”, descreve Henrique.
Mesmo que não haja consenso, “a curta-metragem será uma homenagem a vários filmes”, com gravações nas instalações da APPACDM e nos estúdios da universidade.
“Não estamos muito preocupados com o nosso filme, mas sim com o filme deles: esse é o principal”, sublinha o realizador.
Trabalhar com quem tem deficiência mental “é completamente diferente do habitual”, pela positiva, destaca: “não têm ciúmes, invejas ou preconceitos e o mais forte protege o mais fraco. É a sociedade perfeita”, conclui.
No meio do grupo, muito animado, Silvie Matos, uma das clientes da instituição, não esconde o desejo: “gostava de entrar num filme”.
Por isso, fazer parte de uma equipa de cinema “é espetacular”, refere.
A poucos minutos de começar mais uma sessão de trabalho com os alunos da UBI a azáfama é grande para preparar a sala de reuniões e o equipamento que por ali vai circular.
Se dependesse de João Tiago, outro dos participantes, não havia dúvida sobre o enredo: seria um filme do 007 em que ele próprio entraria, nem que fosse para “ser figurante” e concretizar um sonho.
Fonte: rtp

domingo, 21 de abril de 2013

"É a minha opinião, e sou a seu favor." (Henri Monnier)


Esta matéria é uma entrevista com Richard Galli, autor do livro “Salvando meu filho”. (Título original em inglês: “Rescuing Jeffrey: A Memoir”)
Qual é a mensagem do seu livro?
Este não é um livro com mensagem, é um livro sobre um dilema. Imagine que você seja o primeiro a encontrar seu filho de 17 anos, já com os lábios roxos e a língua azulada para fora da boca. Você tem certeza de que ele está morto. Ainda assim, coloca-o na borda da piscina e tenta ressuscitá-lo.
Alguns minutos depois você percebe que ele ainda está vivo, e sente uma excitação incomparável. Logo em seguida alguém diz: “É melhor pegar os suportes. Pode haver uma lesão na coluna”. Depois desse momento, você afunda cada vez mais. A situação vai piorando a cada minuto, até que você percebe que não salvou a vida de seu filho. Salvou seu pescoço e cabeça, sim, mas o que está embaixo disso será um peso morto para o resto da vida, uma área propícia a doenças e deterioração.
Eu estava convencido de que aquilo não poderia acabar bem e de que ele devia morrer. Precisava fazer o que fosse necessário para que isso acontecesse. Tive essa certeza pouco depois que nós [Galli e sua esposa, Toby] soubemos que ele estava quadriplégico e que seus membros provavelmente não poderiam mais funcionar de forma alguma.
Vocês pensaram, nesse momento, que ele deveria morrer. O que fizeram então?
Eu e minha esposa dissemos aos médicos o que pretendíamos fazer. Não escolhemos dia e hora, mas queríamos nos livrar de todos os obstáculos, incluindo a revisão do caso pelo comitê de ética do hospital.
O que alterou sua decisão?
Alguns dias depois do acidente, da internação e tudo mais, percebi que havia uma grande comunidade que pensava em nós e expressava sua angústia com a nossa situação. Isso me fez parar um pouco, me fez pensar.
Creio que tivemos dois momentos decisivos. O primeiro foi quando um médico nos disse que, quando Jeffrey completasse 18 anos, ele próprio poderia escolher se queria desligar os aparelhos que o mantinham vivo. Disse, também, que Jeffrey nitidamente estava se recuperando do choque, que não havia lesão cerebral e que em breve poderia lidar, ele mesmo, com sua situação.
Quando decidi escrever o livro, pensei que iria matar meu filho e queria que todos soubessem da história. Olhando para trás, percebo que pretendia na verdade publicar minha confissão. O resultado foi mais surpreendente para mim do que para qualquer outra pessoa.

 Jeff está vivo hoje. Como se sente em relação à sua decisão inicial?
Tenho orgulho de todo o processo. Digo isso porque nos demos a chance de testar nossas convicções. Há pessoas que, em uma situação dessas, deixam que os médicos decidam e saem do hospital satisfeitas com o resultado, seja ele qual for. Pensam que sua função é simplesmente assistir a um drama médico.
Outras realmente fazem aquilo que devem, porque o sistema médico existe para realizar um tratamento com o qual você concorde. Eles nos transmitiam a seguinte mensagem: “O resultado será terrível”. E nós respondíamos: “Jeffrey não gostaria disso”.
Você escreveu sobre os 10 dias que se seguiram ao acidente e parecia incrivelmente racional.
Mas não se esqueça de que conto, no livro, que chorávamos o tempo todo. Toby estava basicamente cuidando de mim, porque pensou que eu seria a próxima vítima. Não posso dizer que não estava em choque. É quase como estar em guerra. Às vezes você reage movido apenas pela adrenalina, outras por cansaço e desorientação.
A experiência aumentou sua sensibilidade ao sofrimento que vemos nos noticiários?
Não. Eu já era muito sensível a esse sofrimento e foi isso que me permitiu ser tão racional. Eu sabia que o mundo é um lugar onde ocorrem acidentes. Coisas boas e ruins acontecem simplesmente por acaso.
Você tem crises súbitas de depressão?
Não, é tudo bastante previsível. A tristeza que sinto de vez em quando faz parte da situação. Mas consigo fazer com que dure pouco, é preciso que seja assim. Tenho um compromisso com meu filho e minha família e muitas outras pessoas que passaram pela mesma coisa.
Meu compromisso é o de não achar que a nossa situação é mais trágica que a dos outros.
Como está Jeffrey?
Ele é um rapaz quadriplégico de 19 anos que precisa de aparelhos para respirar. A maioria das coisas que para outros rapazes de 19 anos são fonte de prazer e alegria não fazem parte da vida dele.
Algumas, sim: música, televisão, cinema, surfar na Web. Mas a espontaneidade, o direito de ficar sozinho, de ligar para alguém e marcar um encontro, essa vida normal de adolescente ele não tem.(...)
Fonte: Editora Sextante

E você, qual dos lobos alimenta?


Do mesmo modo que os Estados Unidos construíram a sua coesão social com base num patriotismo forte, a União Europeia fez-se a partir de uma ideia de Estado social. Destruí-lo é reduzir o projecto europeu à irrelevância.

(…)
Se os nossos cérebros demonstrarem que somos radicalmente egoístas, é difícil conseguir uma democracia autêntica. Quando vemos como está a União Europeia (UE) somos levados a admitir que temos cérebros egoístas que impossibilitam uma verdadeira democracia. A resposta é que não é assim. Os nossos cérebros têm uma dimensão egoísta e uma dimensão altruísta.
Que vem da educação?
E da evolução. O nosso cérebro está conformado de tal maneira que podemos ser egoístas ou altruístas. É como naquela história em que o chefe índio estava a contar aos seus netos que em cada homem há dois lobos: um está a favor da concórdia e da paz, o outro do egoísmo e violência. E os dois estão a lutar entre si dentro de cada pessoa. Quando os netos perguntam que lobo ia ganhar, o avô responde: aquele que alimentarem. Se alimentamos sentimentos de solidariedade e de responsabilidade, podemos construir boas democracias. de mentira, fraude, corrupção e das suas consequências.
(…)
Entrevista a Adela Cortina incluída no Público de 20-04-2013