segunda-feira, 22 de abril de 2013

Um filme com gente dentro


Um grupo de alunos de cinema da Universidade da Beira Interior, na Covilhã, decidiu dar o protagonismo a pessoas com deficiência mental no projeto de fim de curso.
“Síndrome de Cinema” é um filme dentro de outro filme, explicou à agência Lusa o aluno e realizador Henrique Cannavial.
Entre 20 a 30 utentes da delegação da Covilhã da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental (APPACDM) vão ser atores, produtores e realizadores de uma fita que será projetada dentro de algumas semanas.
A estreia está marcada para a sala de cinema da universidade, numa gala em que cada um dos participantes vai receber um prémio – tal como as estrelas de cinema recebem os Óscares.
Todo o processo será orientado e filmado pelos alunos de cinema, resultando numa curta-metragem que será avaliada como projeto de final de curso, mas que “representa muito mais”, descreve Henrique Cannavial.
Os finalistas querem “fazer um projeto social, para dar algo à Covilhã”, como forma de retribuir os três anos de hospitalidade de que já beneficiaram, referiu o realizador, natural da ilha da Madeira.
“Sempre fui bem recebido aqui”, sublinhou.
Um dia, escutou a história de um dos colegas que teve uma irmã com Síndrome de Down.
Pouco tempo depois, o projeto estava a ser apresentado à APPACDM da Covilhã, que procurava atividades na área da expressão dramática.
“Foi uma ideia que nos cativou e que nos pareceu enriquecedora para os clientes: eles estão curiosos e motivados”, refere Carina Correia, psicóloga na instituição.
Os alunos estão a conduzir sessões de trabalho em que apresentam o equipamento e os processos de produção e em que tentam chegar a um consenso sobre o filme que vão fazer.
“Uns gostam do 007, outros de comédia”, descreve Henrique.
Mesmo que não haja consenso, “a curta-metragem será uma homenagem a vários filmes”, com gravações nas instalações da APPACDM e nos estúdios da universidade.
“Não estamos muito preocupados com o nosso filme, mas sim com o filme deles: esse é o principal”, sublinha o realizador.
Trabalhar com quem tem deficiência mental “é completamente diferente do habitual”, pela positiva, destaca: “não têm ciúmes, invejas ou preconceitos e o mais forte protege o mais fraco. É a sociedade perfeita”, conclui.
No meio do grupo, muito animado, Silvie Matos, uma das clientes da instituição, não esconde o desejo: “gostava de entrar num filme”.
Por isso, fazer parte de uma equipa de cinema “é espetacular”, refere.
A poucos minutos de começar mais uma sessão de trabalho com os alunos da UBI a azáfama é grande para preparar a sala de reuniões e o equipamento que por ali vai circular.
Se dependesse de João Tiago, outro dos participantes, não havia dúvida sobre o enredo: seria um filme do 007 em que ele próprio entraria, nem que fosse para “ser figurante” e concretizar um sonho.
Fonte: rtp

domingo, 21 de abril de 2013

"É a minha opinião, e sou a seu favor." (Henri Monnier)


Esta matéria é uma entrevista com Richard Galli, autor do livro “Salvando meu filho”. (Título original em inglês: “Rescuing Jeffrey: A Memoir”)
Qual é a mensagem do seu livro?
Este não é um livro com mensagem, é um livro sobre um dilema. Imagine que você seja o primeiro a encontrar seu filho de 17 anos, já com os lábios roxos e a língua azulada para fora da boca. Você tem certeza de que ele está morto. Ainda assim, coloca-o na borda da piscina e tenta ressuscitá-lo.
Alguns minutos depois você percebe que ele ainda está vivo, e sente uma excitação incomparável. Logo em seguida alguém diz: “É melhor pegar os suportes. Pode haver uma lesão na coluna”. Depois desse momento, você afunda cada vez mais. A situação vai piorando a cada minuto, até que você percebe que não salvou a vida de seu filho. Salvou seu pescoço e cabeça, sim, mas o que está embaixo disso será um peso morto para o resto da vida, uma área propícia a doenças e deterioração.
Eu estava convencido de que aquilo não poderia acabar bem e de que ele devia morrer. Precisava fazer o que fosse necessário para que isso acontecesse. Tive essa certeza pouco depois que nós [Galli e sua esposa, Toby] soubemos que ele estava quadriplégico e que seus membros provavelmente não poderiam mais funcionar de forma alguma.
Vocês pensaram, nesse momento, que ele deveria morrer. O que fizeram então?
Eu e minha esposa dissemos aos médicos o que pretendíamos fazer. Não escolhemos dia e hora, mas queríamos nos livrar de todos os obstáculos, incluindo a revisão do caso pelo comitê de ética do hospital.
O que alterou sua decisão?
Alguns dias depois do acidente, da internação e tudo mais, percebi que havia uma grande comunidade que pensava em nós e expressava sua angústia com a nossa situação. Isso me fez parar um pouco, me fez pensar.
Creio que tivemos dois momentos decisivos. O primeiro foi quando um médico nos disse que, quando Jeffrey completasse 18 anos, ele próprio poderia escolher se queria desligar os aparelhos que o mantinham vivo. Disse, também, que Jeffrey nitidamente estava se recuperando do choque, que não havia lesão cerebral e que em breve poderia lidar, ele mesmo, com sua situação.
Quando decidi escrever o livro, pensei que iria matar meu filho e queria que todos soubessem da história. Olhando para trás, percebo que pretendia na verdade publicar minha confissão. O resultado foi mais surpreendente para mim do que para qualquer outra pessoa.

 Jeff está vivo hoje. Como se sente em relação à sua decisão inicial?
Tenho orgulho de todo o processo. Digo isso porque nos demos a chance de testar nossas convicções. Há pessoas que, em uma situação dessas, deixam que os médicos decidam e saem do hospital satisfeitas com o resultado, seja ele qual for. Pensam que sua função é simplesmente assistir a um drama médico.
Outras realmente fazem aquilo que devem, porque o sistema médico existe para realizar um tratamento com o qual você concorde. Eles nos transmitiam a seguinte mensagem: “O resultado será terrível”. E nós respondíamos: “Jeffrey não gostaria disso”.
Você escreveu sobre os 10 dias que se seguiram ao acidente e parecia incrivelmente racional.
Mas não se esqueça de que conto, no livro, que chorávamos o tempo todo. Toby estava basicamente cuidando de mim, porque pensou que eu seria a próxima vítima. Não posso dizer que não estava em choque. É quase como estar em guerra. Às vezes você reage movido apenas pela adrenalina, outras por cansaço e desorientação.
A experiência aumentou sua sensibilidade ao sofrimento que vemos nos noticiários?
Não. Eu já era muito sensível a esse sofrimento e foi isso que me permitiu ser tão racional. Eu sabia que o mundo é um lugar onde ocorrem acidentes. Coisas boas e ruins acontecem simplesmente por acaso.
Você tem crises súbitas de depressão?
Não, é tudo bastante previsível. A tristeza que sinto de vez em quando faz parte da situação. Mas consigo fazer com que dure pouco, é preciso que seja assim. Tenho um compromisso com meu filho e minha família e muitas outras pessoas que passaram pela mesma coisa.
Meu compromisso é o de não achar que a nossa situação é mais trágica que a dos outros.
Como está Jeffrey?
Ele é um rapaz quadriplégico de 19 anos que precisa de aparelhos para respirar. A maioria das coisas que para outros rapazes de 19 anos são fonte de prazer e alegria não fazem parte da vida dele.
Algumas, sim: música, televisão, cinema, surfar na Web. Mas a espontaneidade, o direito de ficar sozinho, de ligar para alguém e marcar um encontro, essa vida normal de adolescente ele não tem.(...)
Fonte: Editora Sextante

E você, qual dos lobos alimenta?


Do mesmo modo que os Estados Unidos construíram a sua coesão social com base num patriotismo forte, a União Europeia fez-se a partir de uma ideia de Estado social. Destruí-lo é reduzir o projecto europeu à irrelevância.

(…)
Se os nossos cérebros demonstrarem que somos radicalmente egoístas, é difícil conseguir uma democracia autêntica. Quando vemos como está a União Europeia (UE) somos levados a admitir que temos cérebros egoístas que impossibilitam uma verdadeira democracia. A resposta é que não é assim. Os nossos cérebros têm uma dimensão egoísta e uma dimensão altruísta.
Que vem da educação?
E da evolução. O nosso cérebro está conformado de tal maneira que podemos ser egoístas ou altruístas. É como naquela história em que o chefe índio estava a contar aos seus netos que em cada homem há dois lobos: um está a favor da concórdia e da paz, o outro do egoísmo e violência. E os dois estão a lutar entre si dentro de cada pessoa. Quando os netos perguntam que lobo ia ganhar, o avô responde: aquele que alimentarem. Se alimentamos sentimentos de solidariedade e de responsabilidade, podemos construir boas democracias. de mentira, fraude, corrupção e das suas consequências.
(…)
Entrevista a Adela Cortina incluída no Público de 20-04-2013

sábado, 20 de abril de 2013

AJUDE-SE


O Rodrigo tem apenas três anos e sofre de leucemia mielóide aguda. Os últimos exames médicos indicam que a criança precisa urgentemente de um transplante de medula óssea. Nos próximos dias, ocorrem dois eventos para apoiar a família de Rodrigo.
A história do Rodrigo tem gerado uma onda de solidariedade nas redes sociais, graças à página do Facebook "Vamos ajudar o Rodrigo" onde a família tem partilhado a evolução do tratamento. A página conta já com mais de 41 mil seguidores que incentivam e manifestam o seu apoio. 
Para ajudar a família da criança, vai decorrer, este sábado, dia 20 de Abril, um evento solidário que onde, além de várias atividades, estarão disponíveis unidades para recolha de medula óssea.
O evento "Todos por Um" decorre entre as 10h e as 18h, na Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa, em Alcântara, e conta com atividades para os mais novos e também uma venda de artigos doados por várias marcas e petiscos. O valor recolhido vai reverter para o tratamento do Rodrigo.
Entretanto, na próxima sexta-feira, dia 26 de abril, vai decorrer uma nova campanha para ajudar o Rodrigo, com um concerto de solidariedade realizado na Escola de Música do Conservatório Nacional, a partir das 20h, com nomes como Maestro António Victorino d’Almeida, Wanda Stuart, entre outros.
Para assistir aos concertos basta fazer um donativo, à entrada, que reverterá totalmente a favor do Rodrigo e da sua família, para ajudar a financiar as despesas do seu tratamento.

Grátis e com qualidade





Esta quarta-feira, 24 de Abril, acontece mais uma sessão de cinema no Teatro Académico Gil Vicente com os filmes "A Batalha de Argel" de Gillo Pontecorvo e "Outro País" de Sérgio Tréfaut.
Consulte AQUI o programa.

Semana em cheio sem gastar um tostão [até 26-04]

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Abram todas as janelas / Abram mais janelas / Do que todas as janelas que há no mundo

Maria Bethânia -Texto: ULTIMATUM - Álvaro de Campos

Clique para ver o vídeo

Mandato de despejo aos mandarins do mundo

Fora tu,
reles
snobe
plebeu
E fora tu, imperialista das sucatas
Charlatão da sinceridade
e tu, da juba socialista, e tu, qualquer outro
Ultimatum a todos eles
E a todos que sejam como eles
Todos!

Monte de tijolos com pretensões a casa
Inútil luxo, megalomania triunfante
E tu, Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral
Que nem te queria descobrir

Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular
Que confundis tudo
Vós, anarquistas deveras sinceros
Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores
Para quererem deixar de trabalhar
Sim, todos vós que representais o mundo
Homens altos
Passai por baixo do meu desprezo
Passai aristocratas de tanga de ouro
Passai Frouxos
Passai radicais do pouco
Quem acredita neles?
Mandem tudo isso para casa
Descascar batatas simbólicas

Fechem-me tudo isso a chave
E deitem a chave fora
Sufoco de ter só isso a minha volta
Deixem-me respirar
Abram todas as janelas
Abram mais janelas
Do que todas as janelas que há no mundo

Nenhuma ideia grande
Nenhuma corrente política
Que soe a uma ideia grão
E o mundo quer a inteligência nova
A sensibilidade nova

O mundo tem sede de que se crie
Porque aí está apodrecer a vida
Quando muito é estrume para o futuro
O que aí está não pode durar
Porque não é nada

Eu da raça dos navegadores
Afirmo que não pode durar
Eu da raça dos descobridores
Desprezo o que seja menos
Que descobrir um novo mundo

Proclamo isso bem alto
Braços erguidos
Fitando o Atlântico

E saudando abstratamente o infinito.


Álvaro de Campos, em 1917